A Faca

Tenho uma faca atravessada
entre a nuca e o coração.
Sangra. Bom sinal. Estou viva.
Sinto uns talhos úmidos cortando-me a cara.
Um cansaço me funda as olheiras.
Perdi aquele certo brilho.
Sou nada hoje. Sou ninguém.
Respiro.
Quero sair daqui, esquecer tudo
e ir para o colo de Cecília,
que me afaga o rosto e me traz de volta à vida.
Ao meu lado há muitas falas. Tudo é confuso.
Tudo é perdido. Eu quero saltar de algum lugar
e cair no centro de mim. Quero ouvir voz nenhuma,
me desfazer no silêncio.
Não há mais pontes que cubram a ausência,
a distância que o tempo cavou.
Não há mais olhos que me perscrutem,
gelo no coração, de um frio que até me conforta.
Nada disso me incomoda. Nada. Só queria minha solidão.
Meu silêncio completo.
Afundar
na única coisa que sei:
que sou.
Escrito por Ghys às 18h41
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