O Silêncio

O que em mim se move em direção ao infinito brota do fundo
E todo o resto flutua É o que me salva da falsa forma do que não é embora grite.
Faço silêncio.
Escrito por Ghys às 18h13
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Calma

Calma, calma.
Silencia, calma.
Respira fundo,
Sorri.
Tudo passa.
Tudo passa.
Agora
Acalma.
Escrito por Ghys às 12h11
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A Tristeza

Ai meu Deus, que tristeza!
Que parece que me arrancaram
Das pétalas de onde voava.
Escrito por Ghys às 18h53
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A Faca

Tenho uma faca atravessada
entre a nuca e o coração.
Sangra. Bom sinal. Estou viva.
Sinto uns talhos úmidos cortando-me a cara.
Um cansaço me funda as olheiras.
Perdi aquele certo brilho.
Sou nada hoje. Sou ninguém.
Respiro.
Quero sair daqui, esquecer tudo
e ir para o colo de Cecília,
que me afaga o rosto e me traz de volta à vida.
Ao meu lado há muitas falas. Tudo é confuso.
Tudo é perdido. Eu quero saltar de algum lugar
e cair no centro de mim. Quero ouvir voz nenhuma,
me desfazer no silêncio.
Não há mais pontes que cubram a ausência,
a distância que o tempo cavou.
Não há mais olhos que me perscrutem,
gelo no coração, de um frio que até me conforta.
Nada disso me incomoda. Nada. Só queria minha solidão.
Meu silêncio completo.
Afundar
na única coisa que sei:
que sou.
Escrito por Ghys às 18h41
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Devia ter ficado...
Arrumei as malas,
Botei cara de viagem,
Refiz o trajeto,
Algo me empurra.
As malas na varanda...
Quem sabe ainda fique...
Escrito por Ghys às 14h24
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Nublar

Hoje aqui
amanheceu nublado,
sereno, frio, silêncio.
Apenas
o canto dos pássaros
e os risos de Cecília
encantam
a manhã
singela.
A bela
manhã...
Céu branco de nuvens paradas.
A sensação longínqua do azul por detrás...
(Nublado, nublar... E só agora percebi a beleza desta palavra...)
Vontade de sair sem rumo,
por aí,
andar a esmo,
sentar em qualquer lugar
e esquecer o tempo, passando...
O tempo nem passa quando amanhece assim...
O tempo para, tudo para.
Só o canto dos pássaros e os risos de Cecília
são o movimento da vida...
Até o vento
que faz dançar os galhos das árvores
parece incorporado ao instante eterno,
ao agora, que é o infinito.
E aos poucos os raios de sol, poderosamente,
aquecem as nuvens, perfuram caminhos, iluminam...
O vendedor de limões passa gritando... as vizinhas acordam a encomendar o cuzcuz e a tapioca, com manteiga ou coco seco, na casa ao lado... vem o vendedor de pamonhas, de vassouras e o de pães...
O vento se acalma, outros cantos e risos se movimentam e o tempo volta a passar...
(mas aquele instante transformado,
Eterno e branco, dura
para sempre,
Dentro de mim...)
Escrito por Ghys às 09h39
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A via campesina

O
Campo, sina.
Via.
Via a sina.
Campo, via.
Eu sabia
Que a minha vida,
A sina,
As flores do mato,
Os risos da menina,
A colheita,
O Espaço.
A saída.
Campo aberto, eu via,
Via Campesina.
Escrito por Ghys às 11h51
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As lavadeiras

Na cabeça a trouxa,
A bacia de roupa,
A lembrança e a vontade.
Na vida a fé,
Os filhos,
O amor e a saudade.
No trabalho
Os braços fortes,
O cansaço,
As cantigas
E as mãos sábias
Curandeiras
Das lavadeiras.
Escrito por Ghys às 11h34
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A Página Virada

A Volta. A Paz.
O Canto dos Pássaros.
As Manhãs de Silêncio.
As Janelas Abertas.
A Casa Habitada.
As Paredes Vivas.
A Página Virada.
Escrito por Ghys às 09h30
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No caminho

Serras, morros e cachoeiras... densa terra, a casa marcada, as árvores cortadas, o massacre... Barracos miseráveis cobertos de palha e lona, pobreza, ausência... Capim e não árvores... Gado de corte, devastação, cheiro de morte, cheiro de sangue, morte e fogo... Queimadas que colam na pele uma tristeza milenar... Índios humilhados, náufragos do sistema, nordestinos, sulistas Que buscam, buscam, buscam... Trágico “desenvolvimento” que retira, destrói, isola, Expulsa, mata, desmata, humilha, despreza... Passou setembro e não choveu. No meu jardim plantei belas flores. E no quintal, sobreviveu a imponente mangueira, A terna goiabeira e a valente laranjeira que teima em renascer. Há pessoas queridas, novos amigos, há sempre os poetas e os músicos, Ilhas de afeto... Em mim, gratidão, fé e força.
Escrito por Ghys às 22h00
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Cidaderio

Nasce do rio a minha cidade. Brota.
Indefinido limite com o rio. Respiramos água.
Chuvas que inundam. Marés que sobem.
Ruas de rio prolongadas para dentro da minha cidade.
Mundo de água.
Escrito por Ghys às 11h31
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Quando minh'alma conheceu a vossa

Hoje, amado senhor,
Abri a janela dos fundos
E senti o cheiro das azaléias
Que estavam no conto
Daquele dia
Quando minh’alma
Conheceu a vossa.
Escrito por Ghys às 00h17
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Saudade

Hoje senti saudade, coisa que aboli não por querer, mas como caminho de continuar... saudade me mataria se tivesse aqui, comeria meu coração, secava meus olhos se ainda morasse dentro de mim... mas hoje saudade me visitou... sorrateira, olhos astutos, chegou sem avisar, botou cadeira na varanda, sentou e desatou a lembrar o que ficou velho, amarelado pelo tempo... daí saiu em palavras... e aquietou... foi só um aceno e um sorriso...
Escrito por Ghys às 00h06
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O Superhipermegatotalultraautomático

- filha, mamãe tá tão cansada...
já tô funcionando no automático...
- ahhhh mãe, tadinha...
é que vocês, gente grande, tem um automaticozinho
tão pobrezinho, sem graça, fraquinho.
É um automaticozinho que logo desliga...
Olha mamãe, o meu é assim: quando eu tô um pouco cansada
eu ligo logo o meu super automático,
mas tenho o super hiper, o super hiper mega
e o super hiper mega total automático...
e quando preciso ainda tenho o
super hiper mega total ultra automático...
Que tal?
Escrito por Ghys às 23h31
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Asinhas

Mãe eu conheci uma passarinha especial...
ela tinha uma só asinha e a outra era de pano,
bem fininha, da finura do teu cabelo...
ela sente como se fosse uma asa normal...
assim mesmo que eu vou nascer na próxima vida...
Eu só quero ser humana
se eu tiver asinhas pra poder voar,
senão quero ser passarinha...
Escrito por Ghys às 23h18
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Antes

Hoje vou dormir com gosto de cartas no olhar
Saudades de letras escritas de próprio punho
Coisas antigas, perdidas,
Viradas pó
Em algum fundo de armário velho
Cartas que escrevi antes
Confissões de amores
Pecados, medos, lembranças, tremores
Letras de músicas mal copiadas
Palavras trocadas, rabiscos treinados
Jogados ali n’algum papel inocente
Cartas que enviei, rasguei, acolhi, aceitei
Que escrevi antes...
Escrito por Ghys às 22h16
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O fino fio que escorre

O que cabe no que lembro
Vem do fino fio do amor
Que ainda escorre dos meus olhos
Quando penso, e ainda penso, e tanto
Como ainda te quero,
E tanto...
Que um dia te digo.
Escrito por Ghys às 22h58
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Meu reino se prepara

Minha fantasia de princesa guardo intacta,
Quase perdida no velho armário
Das trancas enferrujadas.
Pra nunca mais eu me encantar.
Mas tem madrugadas
Que a porta destrava,
Feito mágica
E o vestido me habita
E meu reino inteiro
Se prepara.
Escrito por Ghys às 22h43
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Salto

Amanhã, vôo de novo.
Salto de novo,
Sem pára-quedas.
O vôo é livre,
E o salto, mortal,
Feito as pétalas...
Escrito por Ghys às 22h28
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Fogo e água

Na estrada a trilha do fogo me segue, de longe, me segue
E a água que inunda meus olhos vira pasta misturada à fumaça...
Escrito por Ghys às 22h17
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Como um dia, combinado

Senhor, meu amado,
Cheguei neste porto encantado,
Faz vinte minutos que saltei.
Meu barco se foi, iluminado...
A noite passada,
O esperei.
O porto era aquele
Avarandado...
Faz vinte minutos que cheguei,
Senhor, meu amado,
Como um dia, combinado.
Escrito por Ghys às 21h59
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Serena

Sinto que te aproximas...
Assim me dizem as guias,
Me dizem também as giras...
Me mandam recados, os astros,
As cartas confirmam pulsantes...
E, sobretudo,
Aqui dentro algo se movimenta
Uma maré se agita inequívoca
E, mesmo assim, me encontro serena.
Escrito por Ghys às 21h40
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Vida de Luz

Luz de estrelas e brilho do sol,
Luz da lua e luz em mim...
Luz nas folhas e nas pétalas,
E nas asas da borboleta este brilho em movimento.
A vida plena de luz em tudo brilha
E também em ti.
Escrito por Ghys às 21h30
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Aquele vaso, inquebrável, o espera

Senhor, sinto um aroma que me invade
E que se aproxima de vosso perfume,
Ou algo assim
Como a lavanda de rosas,
Que me enviaste ainda ontem.
Sinto saudades, me permita,
Confessar o sentimento preso
Em meu peito que acelera
Quando lembro vosso olhar
E quase escuto vosso riso
É primavera, Senhor,
E aquele vaso, inquebrável,
O espera.
Escrito por Ghys às 21h22
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Conselhos

Ceci me disse que o Dininho vem sempre que ela chama.
Mas outro dia, ele demorava, demorava, demorava...
“- e eu esperava com calma sabe mamãe...
porque tava pensando que ele tava brincando
com aquele coelhinho desenhado nas nuvens...
e de repente, mamãe, vi tudo... vi tudinho:
é que o Dininho tava enrolando a mamãe dele...
não queria a sopinha de jerimum com couve...
e ficava brincando de soprar estrelinhas coloridas no ar...
Esse Dininho né mamãe... não tem jeito não... não tem jeito mesmo...
E eu dei até uns conselhos pra ele pra ver se ele se ajeita, sabe mamãe?”
- É, né...
Escrito por Ghys às 21h12
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Virada

Vida virada que tudo passou.
Foi na maré das ventanias...
E agora esta janela imensa
Que me traz os cheiros,
As cores e as palavras...
Velas abertas...
Caramba!
Amanheceu o dia
Da promessa!
Vida virou...
Escrito por Ghys às 20h59
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Quem somos está em tudo
Não sei... não sei mesmo assim, ao certo,
Mas algo aqui dentro me diz
Que as antenas solitárias nos telhados,
Captam outros sinais...
Outros sinais para cruzes de aço, alumínio, ferro
Silêncios nas partículas.
Quem somos está em tudo.
Escrito por Ghys às 05h50
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Feliz é simples

Teve um dia que começou assim:
O brilho do sol refletia no cinto de aço do poste de luz
Então eu vi que a vida brilha em tudo, sempre e tanto,
E essa alegria explodiu dentro de mim
Que até hoje sou assim
Feliz demais...
Feliz é simples...
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